Há um século, pós-guerra e pós-pandemia moldaram Olimpíadas das ‘pombas da paz’

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) — Os Jogos de 1920, na belga Antuérpia, introduziram três importantes símbolos olímpicos: o juramento dos atletas, a bandeira com os cinco anéis coloridos e a revoada de pombas da paz.

Tempos mais pacíficos eram tudo o que o COI (Comitê Olímpico Internacional) desejava após ver aquela edição a perigo, e em parte por uma ameaça que assombraria o evento em Tóquio um século depois. Outra pandemia, a ainda mais mortal gripe espanhola, havia acabado de matar 50 milhões de pessoas.

Isso sem falar na Primeira Guerra Mundial, encerrada dois anos antes, mas que ainda debitava suas parcelas de destruição na Europa. Um festejo esportivo daquela magnitude, com uma crise sanitária que mal amainara, levou muitos belgas a indagar: havia clima em casa?

Muda o século, segue o dilema. Também considerável fatia dos japoneses questionou se seguir com os Jogos no país era prudente, ante uma taxa de contágio por Covid-19 ainda galopante. Ontem e hoje, o COI decidiu manter as Olimpíadas — com um ano de atraso, no exemplo contemporâneo.

Passado meio ano do armistício que pôs fim à Primeira Guerra, o barão francês Pierre de Coubertin, que havia fundado as Olimpíadas modernas em 1896, anunciou a cidade belga como sede dos Jogos de 1920.

A edição anterior, prevista para acontecer em Berlim, fora cancelada devido ao conflito mundial — que começou com a tentativa belga de resistir a uma invasão do poderoso exército alemão. O direito de hospedar as Olimpíadas foi encarado como recompensa pelo sofrimento do povo na guerra.

Um cataclisma sanitário, contudo, espirraria no discurso paz e amor que o COI tentava emplacar, com a promessa de Olimpíadas que restabelecessem a harmonia mundial. A última onda da gripe espanhola era recente, e a imprensa relatava temores de novos surtos perto do começo do evento esportivo, em agosto.

Bram Constandt e Annick Willem, pesquisadores do departamento de ciência esportiva da Universidade Gent, na Bélgica, são autores de um artigo sobre a experiência olímpica centenária. A dupla lembra que, mais do que a violência direta da Primeira Guerra, o vírus matou milhões de militares e civis.

Mas o confronto de escala global deixaria o colapso sanitário daqueles anos “parcialmente ofuscado”, segundo Constandt. Os países combatentes, à época, não tinham interesse em dar publicidade ao patógeno que matou mais do que a própria guerra, até para não atrapalhar o recrutamento de soldados — a gripe não nasceu na Espanha coisíssima nenhuma, aliás, só ganhou essa identificação porque o país era neutro no combate e não ocultou notícias sobre a doença, daí a ideia de que o berço da moléstia era lá.

“Apesar dessa censura de guerra, é certo que a organização das Olimpíadas de 1920 ficou muito mais complexa devido a uma sociedade que ainda sofria física e mentalmente por uma dupla de eventos mortais e interconectados”, diz Constandt à reportagem. A primeira epidemia global daquele século pode ser considerada “de certa forma esquecida”, afirma o acadêmico belga. “Não é surpresa que as fontes históricas se refiram pouco às consequências potenciais ou diretas dela nos Jogos.”

No front bélico, havia muitas feridas abertas. Boa parte da comitiva olímpica dos EUA, por exemplo, viajou à Europa no mesmo navio usado para devolver corpos de soldados americanos mortos em combate meses antes. O cheiro de formol, reclamaram os atletas, empesteou todo o percurso marítimo.

O medo de contágio por influenza não foi um empecilho para plateias lotadas. Mais esvaziado estava o orçamento belga para realizar uma cerimônia esportiva daquela dimensão, com espectadores e comitivas de vários continentes -as nações derrotadas na guerra, Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia, não foram chamadas, e a recém-formada União Soviética declinou o convite.

Corredor americano, Walker Smith chegou a descrever, num depoimento em 1988, como os atletas dormiam em camas sem colchão em dormitórios para até 15 homens. Menos acolhedoras, certamente, do que as camas de papelão na Vila Olímpica de Tóquio, feitas assim por motivos ambientais.

A gastronomia olímpica também deixava a desejar, com a distribuição de pão, café e sardinha para os competidores. Situação bem diferente da de 2021, com uma cozinha que oferece pratos ocidentais, locais e asiáticos em geral -embora o peixe cru do sushi local esteja vetado, por motivos sanitários.

Ouro pelos EUA nos saltos ornamentais aos 14 anos, Aileen Riggin contou em 1999 que se impressionou com a cerimônia de abertura, “mas eles não tinham toques de Hollywood ali”. Lembrou do voo das pombas da paz e de se destacar por ser mulher. Só havia um punhado delas entre os atletas.

Também recordou do tour que fez por um campo de batalha preservado depois de conquistar sua medalha. Viu botas enfiadas na lama, foi examiná-las e tomou um susto. “Peguei uma que tinha um pé dentro”, contou décadas depois, já nonagenária.

Dois anos antes de virar medalhista, Riggin contraiu a gripe que vitimou milhões de contemporâneos quando morava nas Filipinas com o pai, militar da Marinha. “Ela estava tão doente que os médicos recomendaram que a família voltasse para os Estados Unidos”, diz à reportagem Roland Renson, professor de sociologia do esporte da belga Universidade de Leuven.

A gripe já havia matado outros esportistas olímpicos, como o irlandês-americano Martin Sheridan (1881-1918), que no começo do século 20 ganhou medalhas por arremesso de peso, lançamento de disco e salto em distância. Era, como descrito no New York Times, “um dos maiores atletas que os EUA já conheceram”.

A recuperação de Riggin contou com a recomendação médica para nadar mais. Ela acabou na Associação de Natação Feminina de Nova York, e de lá para as Olimpíadas na Antuérpia.

A competição belga marcaria ainda a estreia brasileira nos Jogos. A primeira delegação nacional, com 21 atletas, demorou quase um mês para fazer a travessia marítima em camarotes apertados e sufocantes, a bordo de um navio cedido pelo governo federal, o Curvelo. Os debutantes faturaram três medalhas, todas no tiro esportivo. Guilherme Paraense, tenente do Exército, levou o primeiro ouro pelo país.

Professora da USP e autora de “Atletas Olímpicos Brasileiros”, Katia Rubio diz que a literatura sobre a participação brasileira em 1920 não faz referência à pandemia que dizimou famílias inteiras no país.

“Quem participou daqueles Jogos era a aristocracia brasileira, paulista e carioca em sua essência, e aqueles que não estavam nessa condição social eram militares”, afirma Rubio, colunista do jornal Folha de S.Paulo.

O governo belga tinha planos de celebrar os cem anos das Olimpíadas em casa, mas os cancelou devido à pandemia da vez. As pombas, soltas pela primeira vez na Antuérpia, viraram no Japão de 2021 um espetáculo em origami de papel.

Fonte Click PB

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.

%d blogueiros gostam disto: